• Pedro Fleury

A potência em indicar um outro alguém

O que dá pra fazer depois que recusamos uma proposta de projeto e as conexões possíveis a partir disso. (:



Com que frequência você diz "não"?


Sei que parece uma pergunta boba, porque dizemos não o tempo inteiro, mas o "não" que me refiro aqui, diz respeito a recusa de uma oferta, depois de perceber que seria injusto com quem te contrata - e com você mesmo - aceitar executar algo que provavelmente você não conhece ou domina, ou simplesmente não tem mais disposição para o faze-lo. É preciso coragem e maturidade para dizer "não, infelizmente não poderei te atender, pois a sua demanda foge do meu escopo de trabalho."


E ao mesmo tempo, quando se inicia uma trajetória profissional, tudo o que aparece é uma oportunidade para crescer, aprender e testar. Digo isso porque, há 7 anos atrás, quando comecei minha trajetória como artista visual, eu abraçava tudo, pegava o que viesse, afinal: se tem demanda, é porque existe confiança. E deu certo, na maioria das vezes! Testei inúmeras técnicas dizendo "sei sim, vamos fazer!" E em outras, corri um grande risco, com desfechos catastróficos. Aos poucos fui construindo uma linguagem própria, conquistando um lugar no mercado, estabelecendo uma condição financeira melhor e deixando para trás os outros caminhos que já não tinham tanta conexão com a minha pesquisa.


E chega a temporada dos "nãos." E quando digo não, me refiro ao poder de escolha. Com quem quero trabalhar? Que tipo de trabalho me interessa? Quero executar esse projeto por que dou conta, me empolga ou por que preciso da grana? Posso recusar essa oferta? Entender nosso lugar no mundo e nossas principais qualidades e atribuições ajuda um pouquinho na chegada dos "nãos."


Tenho consciência de que poder dizer "não" é um privilégio e que as condições sociais influenciam na tomada de decisão. Não atoa os verbos construir, conquistar e estabelecer me soam um tanto colonizadores e principalmente - vindos de um artista branco e cisgênero como eu - clichês, com um ar de meritocracia. De qualquer forma é a minha trajetória e só sei dizer sobre ela. E quando estou com amigos da mesma área e de diferentes privilégios, fico contente ao perceber que estão dizendo muitos "nãos", até mais do que eu. Mas essa ramificação do assunto merece um outro texto!


Por fim, dizer um "não" por livre e espontânea consciência já é de muito valor, tanto pra você quanto pra quem te procura, pois delimita um lugar e humaniza o discurso. Entender nossas limitações é sim parte do processo de amadurecimento profissional.


Fidelidade ao que se dá conta


Esse texto é sobre dizer "não", mas também sobre o que pode vir depois dele! Recusar alguma proposta, seja por consciência de domínio daquilo ou porque simplesmente não te interessa ou contribui com a sua pesquisa já é um grande passo, é ser fiel ao que você consegue executar e acredita.


Mas recentemente, percebi que o que tem me proporcionando ainda mais prazer do que um posicionamento perante algo, é poder, em seguida, dar uma solução. É o famoso "indique um coleguinha, gostoso demais!" Sim, fantasiamos ser uma prática comum, mas não é. Digo por experiência própria: demorei anos pra me sentir seguro o suficiente com o meu trabalho - tanto no campo profissional quanto no financeiro - pra poder indicar alguém que, com certeza absoluta, executaria a proposta muito melhor do que eu. Alcançar essa segurança é um processo longo e dolorido, cheio de auto-sabotagem e fragilidade, mas é possível.


A potência em indicar um outro alguém


A linha é muito tênue, fina e delicada quando se trata de recusar projetos, principalmente no inicio da carreira. Você precisa crescer; precisa de experiência; precisa testar; pode ser que cruze com clientes um tanto abusivos, por conta do lugar que você ocupa e não poderá cobrar o tanto que acredita que o seu trabalho vale, não agora.


Só que ao mesmo tempo, fico imaginando a possibilidade dos "nãos" desde o início. Será que eu teria chegado onde cheguei hoje? Será que teria me despido desse medo de não dar conta ou do outro colega de profissão que faz melhor?


É de praxe ter sempre mais perguntas do que respostas, mas o que sei é que quando atingi esse lugar de recusar algo e logo em seguida indicar alguém que executará tão bem quanto eu - ou até melhor - entendi que é nesse lugar que mora a potência de se criar uma rede colaborativa. Independente de qual seja a sua área de atuação: seja rede, seja ponto de contato, seja um facilitador, e o mais importante, seja seguro com o que seu. Indicar alguém não é demonstração de fraqueza ou coloca em risco o seu trabalho, pelo contrário, demostra maturidade e coerência, diz sobre ser autêntico o suficiente para acreditar em um outro com tanto potencial quanto você, mas com qualificações mais interessantes para aquele projeto. Todo mundo sai ganhando. (:

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